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Sozinhos, mas não solitários

Se há uma estatística comprovando que estamos cada vez mais individualistas, é esta: o número de pessoas morando sozinhas no Brasil quase dobrou nos últimos dez anos, saltando de 5,5 milhões para 9,9 milhões. São mais jovens saindo da casa dos pais em busca de autonomia, mais pessoas que se separaram, mais senhoras e senhores que enviuvaram, mais gente que estuda ou trabalha longe da cidade de origem e até mesmo mais casais que mantêm uma relação estável e optaram por viver cada um no seu canto.

Na última década, em que a quantidade total de domicílios contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou de 53,3 milhões para 68,1 milhões, a participação dos chamados “arranjos unipessoais” -aqueles ocupados por apenas um morador – evoluiu de 10,4% para 14,6% dos domicílios. Trata-se de um fenômeno estreitamente vinculado a outro, mais amplo: o encolhimento das famílias. Nesse mesmo período, a taxa de fecundidade caiu quase 20%, de 2,09 para 1,72 filhos por mulher, e a proporção de casais com filhos, morando todos sob o mesmo teto, recuou de 50,1% para 42,3% dos lares brasileiros.

Atravessamos recentemente o momento histórico em que a composição tradicional da família retratada em certas propagandas de margarina deixou de ser maioria no Brasil. Em contrapartida, a fatia dos casais sem filhos subiu de 15,2% para 2o% dos domicílios. A soma desses fatores fez o número médio de moradores por casa ou apartamento – o tamanho padrão do núcleo familiar brasileiro – ser reduzido de 3,5 para três pessoas. Isso quer dizer que, há dez anos, dois domicílios abrigavam juntos, em média, sete moradores. Agora, abrigam seis. Boa parte desses “sétimos elementos” foi morar sozinha.

Os irmãos Marco e Enrico Betoni, de São Paulo, reforçaram essa estatística no fim do ano passado, quando saíram da casa onde viviam com a mãe e o padrasto para ocupar os apartamentos que ganharam do pai – imóveis de 5om2 em um mesmo prédio. “Foi uma mudança completa de vida, que estamos vivendo com entusiasmo e, ao mesmo tempo, com certa apreensão”, diz o caçula, Enrico, engenheiro de 24 anos. O sentimento dúbio se explica pelo conflito entre a satisfação com a liberdade e o receio de que a parte chata ocupe um espaço cada vez maior no cotidiano.

Os rapazes estão enfrentando tarefas que até então não tinham, como cuidar da limpeza e abastecer a despensa, além de assumir contas inéditas para eles – condomínio, IPTU, energia, TV a cabo, internet e gás. O pai deu os apartamentos de presente com a condição de que os filhos bancassem todas as contas. A mãe prometeu lidar bem com a “síndrome do ninho vazio” e, mesmo morando a apenas 2km dos filhos, não está fazendo o papel de ‘babá de marmanjo”.

Há uma certa percepção recorrente de que as pessoas que vivem sozinhas tendem a ser menos econômicas, por conta dos apelos da vida de solteiro e do hábito de passar mais tempo fora de casa, o que supostamente significa gastar mais. Essa tendência não é confirmada pelas estatísticas, entretanto.

Os diversos aspectos relacionados à nova realidade dos irmãos Betoni, por exemplo, consomem cerca de 30% do salário de cada um. Como eles não reduziram a quantidade de dinheiro que guardam mensalmente, equivalente também a aproximadamente 30% da renda, a única solução é reduzir os gastos supérfluos, especialmente aqueles com roupas, baladas e restaurantes. “Acho que sairemos dessa transição bem mais responsáveis e maduros”, diz o advogado Marco, de 26 anos, sobre o período de adaptação.

A pedido da reportagem, o Instituto Ipsos Connect cruzou informações da pesquisa permanente que faz com milhares de entrevistados das nove principais regiões metropolitanas do país para entender o comportamento financeiro de quem mora sozinho. Embora uma das constatações seja a renda média 12% superior – R$ 1.953,60, contra R$ 1.742,40 da população geral -, isso não significa que essas pessoas sejam perdulárias. Quem mora sozinho recorre menos aos cartões de crédito (gasto mensal médio de R$ 636, contra R$ 658 da população total) e consegue guardar mais dinheiro – 26% têm algum tipo de investimento financeiro, como aplicações, poupança e previdência privada, contra 23% da população em geral.

“Isso se explica em grande parte pelo fato de que morar sozinho significa ter l00% de autonomia em relação à vida financeira. São reflexões e decisões da pessoa com ela mesma”, diz o diretor da Ipsos Connect, Diego Pagura. Assim, fazer ou não um determinado programa ou uma determinada compra passa a ser uma escolha individual, que não precisa ser negociada ou validada com outras pessoas. Da mesma forma, os benefícios de economizar são mais fortemente perceptíveis para quem não compartilha o orçamento com mais ninguém.

Tudo isso exige disciplina – a maior parte das pessoas que moram sozinhas está longe de nadar em dinheiro. De acordo com o IBGE, 79% delas sobrevivem com até dois salários mínimos por mês, ou R$ 1.874. Não é por acaso, portanto, que as regiões brasileiras com menores índices de arranjos unipessoais são as mais pobres: Norte (11,5%) e Nordeste (13,1%), enquanto a proporção é de 15,5% no Sudeste, 15,8% no Sul e 15,9% no Centro-Oeste. O Estado que mais se destaca nesse aspecto é o Rio de Janeiro – 19,5% dos domicílios são ocupados por um único morador. O Rio Grande do Sul aparece na segunda colocação, com 17,6%, seguido por Distrito Federal e Mato Grosso (15,8%). Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina têm índice de 15,1%, e a Bahia, de 14,9%. Só aí aparece São Paulo, com 14,4%. Na ponta oposta, os Estados com menor proporção de domicílios ocupados por uma só pessoa são Amazonas e Rio Grande do Norte (9,8%), seguidos por Maranhão (9,9%) e Pará (10,1%).

Por mais que seja uma condição desejada por muitos, a autonomia está inevitavelmente condicionada à capacidade de bancar todas as contas de uma residência. A exemplo do que ocorre com as regiões brasileiras, o percentual de domicílios com um só morador costuma crescer na mesma proporção da renda per capita de um país. Estados Unidos, Canadá, Japão, Itália e Inglaterra têm entre 30% e 35% de domicílios ocupados por uma pessoa. Há um caso, no entanto, que escapa totalmente do padrão: a Suécia, onde os solteiros estão em nada menos que 50% dos domicílios. Esse índice resulta da combinação entre a alta renda da população, a grande disponibilidade de imóveis projetados para pessoas sozinhas e a cultura do país, que considera natural um rapaz ou uma moça sair da casa dos pais aos 17 anos, como símbolo de independência.

Essa realidade foi retratada no documentário “The Swedish Theory of Love” (A Teoria Sueca do Amor, de 2015), de Erik Gandini, crítica demolidora à “sociedade de indivíduos” em que a Suécia se tornou por conta da cultura de autossuficiência dos seus cidadãos. O filme apresenta uma série de indícios para evidenciar o quanto esse modo de vida vem resultando em solidão, egoísmo e alienação. Um dos destaques do documentário é a história de um homem cuja morte dentro do próprio apartamento demorou dois anos para ser descoberta – ninguém havia sentido sua falta e suas contas continuaram sendo automaticamente debitadas. Embora seja um dos países com melhores índices de qualidade de vida, a Suécia tem uma das maiores taxas de suicídio da Europa – 11,1 casos por 100 mil habitantes ao ano, quase o dobro da taxa brasileira, 5,8 casos por 100 mil habitantes ao ano.

 Os especialistas em demografia cravam sem hesitar na tendência de que o percentual de pessoas vivendo sozinhas no Brasil continuará crescendo ao longo das próximas décadas. O principal fator que leva a essa aposta é a relação sempre próxima entre o envelhecimento da população e o aumento do número de sozinhos. “Estamos em plena transição demográfica, fenômeno que se caracteriza por quedas tanto nas taxas de natalidade quanto nas de mortalidade. Com isso, a base da pirâmide vai se reduzindo e o topo vai ganhando corpo, fenômeno que aqui no Brasil começou na década de 1970 e deve se estender até a de 2070″, afirma o demógrafo José Eustáquio Diniz, pesquisador do IBGE e da Escola Nacional de Ciências Estatísticas.

Ter mais pessoas acima de 5o anos na população significa, automaticamente, ter mais gente morando sozinha, pois é na fase madura da vida que se concentram mais casos – 63,7% das pessoas que moram sozinhas no Brasil, hoje, têm mais de 5o anos. Há dez anos, esse percentual era de 57,3%. No que diz respeito ao gênero, as pessoas que vivem sozinhas estão na mesma proporção da população brasileira como um todo – 50,3% de mulheres e 49,7% de homens. Há, contudo, uma grande variação de região para região. No Norte, a preponderância é masculina, com 64,5% dos casos. No Sul, é feminina: 57,1%. Os extremos estão nos Estados do Acre, com 66,5% de homens, e do Rio Grande do Sul, com 58,5% de mulheres.

A incidência de mulheres que moram sozinhas continua muito ligada à viuvez no fim da vida, já que a expectativa de vida das brasileiras é sete anos maior que a dos homens. Ao mesmo tempo, no entanto, deixaram de chamar tanto a atenção da sociedade os casos de mulheres mais jovens que optam por ter uma vida autônoma e independente – condição raríssima algumas décadas atrás, quando as mulheres costumavam sair da casa dos pais diretamente para o casamento.

Ao fazer sua transição para a vida autônoma, dois anos e meio atrás, a designer Vivian Tiso, de 34 anos, percebeu ainda certos níveis de resistência e preconceito diante da ideia de uma mulher morando sozinha. “Muitas amigas não esconderam a preocupação com a minha segurança, como se eu estivesse mais vulnerável por ser mulher. E os rapazes muitas vezes passaram a ter um comportamento diferente ao saber que eu estava morando sozinha, como se isso tivesse me tornado mais ‘fácil’, diz.

Vivian morava com a mãe e a tia, mas a morte da tia e um novo relacionamento da mãe, que passou a viver com o namorado, foram as circunstâncias que a obrigaram a materializar o desejo antigo de independência. Procurou uma nova casa, que pudesse abrigar os seus seis cachorros. O imóvel que alugou, no entanto, apresentou uma série de problemas, como infiltrações e a presença constante de ratos. A vizinhança não foi das mais acolhedoras e reclamava dos latidos dos cães.

Tudo melhorou um ano depois, quando se mudou para a casa onde vive atualmente, na Chácara Santo Antônio, na zona sul de São Paulo. “Na casa anterior eu vivia contratando os serviços de marido de aluguel; aqui não tem sido mais necessário”, diz, atribuindo essa mudança não apenas às melhores condições do imóvel, mas também à experiência e à habilidade que adquiriu em tarefas como trocar lâmpadas e substituir a resistência queimada do chuveiro. “O principal é que a vizinhança aqui combina com o meu estilo de vida”, diz Vivian.

A designer afirma que sua personalidade está se tornando mais individualista. “Gosto de saber onde estão as minhas coisas e detesto quando alguém vem aqui e altera essa lógica. Não tem jeito, a gente vai ficando cheia de manias quando mora sozinha.” Ela não pensa em ter filhos e, se vier a ter um relacionamento sério, planeja propor ao parceiro que cada um continue morando na sua casa, arranjo que está se tornando cada vez mais frequente no Brasil.

O Instituto Locomotiva investigou o estado civil das pessoas que vivem sozinhas e chegou à conclusão de que 7% são oficialmente casadas ou estão em um relacionamento duradouro e estável. São parceiros que moram em cidades diferentes, por circunstâncias da vida, ou simplesmente decidiram que a melhor fórmula para preservar o relacionamento seria cada um ter o seu próprio lar.

É o caso de Regina Czeresnia, de 53 anos, dona de um restaurante vegetariano em São Paulo. A relação com o atual “namorido” começou há seis anos e desde então segue a mesma fórmula: cada um na sua casa, embora os dois estejam a poucas quadras um do outro. “Tem dado certo desse jeito e não há porque mudar. Valorizo muito ter o meu espaço, o meu ritmo e o direito de fazer o que bem entendo quando estou em casa, sem ter que dar satisfação a ninguém”, diz ela, que não teve filhos.

O casal costuma passar o fim de semana juntos – às vezes numa casa, às vezes na outra. Durante a semana, a vida é tão corrida para ambos que eventualmente não conseguem encontrar tempo para os encontros. “Antes tínhamos as quartas reservadas para a gente, mas decidimos que não precisava ser assim tão rígido. É melhor quando tanto eu quanto ele estamos realmente com vontade. Tudo precisa ser falado com muita transparência”, diz Regina, que escolheu esse estilo de vida depois de experimentar outros. Ela morou com os pais até os 33 anos – quando se casou, após sete anos de namoro. O casamento durou quatro anos, e foi a partir da separação, aos 37 anos, que passou a viver sozinha. “Descobri um nível de liberdade que nunca havia sentido e decidi que jamais abriria mão disso, mesmo que voltasse a ter um relacionamento estável e duradouro.”

A perspectiva de um número cada vez maior de brasileiras e brasileiros morando sozinhos desperta o interesse do mercado imobiliário. O prédio para o qual os irmãos Betoni se mudaram é um dos 40 empreendimentos lançados desde 2009 pela Incorporadora e Construtora Vitacon, que se especializou no segmento de apartamentos compactos na cidade de São Paulo – já colocou 4,5 mil unidades no mercado, metade das quais entregues e a outra metade em construção. “A nossa meta é oferecer soluções de moradia que atendam às expectativas do nosso público-alvo, que não se importa com uma metragem mais baixa se tiver outros benefícios, como taxa de condomínio mais baixa, serviços compartilhados e localização privilegiada”, diz o fundador e presidente da Vitacon, o engenheiro civil Alexandre Lafer Frankel, de 38 anos.

A própria trajetória e estilo de vida de Frankel, que já escreveu três livros sobre economia compartilhada, ajudam a definir o tipo de cliente da Vitacon. São pessoas que passam bastante tempo fora de casa e veem o apartamento como lugar para dormir e refúgio nos raros momentos que pedem isolamento. O mais importante é a localização, com acesso fácil a transporte público e à estrutura urbana – supermercados, padarias e opções de lazer. “As mulheres têm apostado muito nessa proposta, tanto que compõem 48% da clientela”, afirma Frankel.

Por enquanto, ele não pensa em expandir a atuação para fora da cidade-sede da empresa, por considerar que ainda há muito a explorar em São Paulo nesse segmento. “A gente foi aprendendo a trabalhar a inteligência dos espaços, buscando cada vez mais o melhor aproveitamento possível. Isso nos permitiu reduzir gradualmente o tamanho das unidades, até chegar ao recorde de 14 m2 “, diz, referindo-se ao Vita Bom Retiro, com 280 unidades – a metragem inclui um banheiro de 3,5 m2. O empreendimento será entregue em 2018 aos proprietários que pagaram a partir de R$ 89 mil pelo imóvel e terão uma taxa mensal de condomínio de R$ 180.

Assim como os demais prédios da Vitacon, o Vita Bom Retiro terá uma série de serviços e equipamentos que facilitam o cotidiano e incentivam a socialização – academia, áreas para receber visitas, espaço de coworking, lavanderia e disponibilidade de ferramentas utilizadas eventualmente pelos moradores, como furadeira, serrote, martelo e chaves de fenda. O número de vagas para estacionamento corresponde a 6o% do total de unidades, já que a ideia é incentivar as pessoas a não ter carro – o projeto prevê a disponibilização de bicicletas, motos e carros em regime de compartilhamento, sob pagamento de uma taxa. Outra possibilidade que funcionará sob a mesma lógica é o aluguel de apartamentos para acomodar visitas.

Frankel acredita que o aumento da proporção das pessoas que vivem sozinhas contribuirá para uma mudança na relação das pessoas com os lugares onde elas vivem, especialmente nas grandes cidades – a desimobilização. “Num mundo em que a vida será cada vez mais dinâmica, com muitas mudanças ao longo de uma trajetória pessoal, não fará mais sentido as pessoas se amarrarem a um imóvel. Qual o sentido de passar anos trabalhando para ter a posse de um bem enquanto o resto da vida fica praticamente congelado?” Ele aposta que o aluguel se tornará uma escolha cada vez mais difundida, pois permite mudanças com agilidade muito maior do que situações que envolvem venda. Segundo Frankel, 3o% dos clientes que já compraram imóveis da Vitacon o fizeram na condição de investidores, e não para ocupá-los pessoalmente.

Fonte: Valor Econômico – março/2017

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