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New kid no bloco

Com menos de oito anos de vida, a construtora Vitacon, do jovem Alexandre Lafer Frankel, mexeu com o mercado imobiliário de São Paulo ao lançar apartamentos mínimos e sem vaga de garagem. Sem medo de arriscar, o empresário vai além e não só propõe novos modelos de financiamento como desmitifica o sonho da casa própria.

Lançar prédios com apartamentos supercompactos – coisa de 14 m² de área – não é o único movimento com o qual a construtora Vitacon vem surpreendendo o mercado imobiliário brasileiro desde que entrou em operação, em 2009. Em abril, a empresa anunciou duas associações com investidores estrangeiros, expediente pouco comum no setor, ao menos no Brasil. Com o grupo CapitaLand, de Cingapura, pretende empenhar, em cinco anos, R$ 1,5 bilhão na construção e posterior manutenção de 5 mil apartamentos. Pelo menos 50% desse valor vai ser desembolsado pelos estrangeiros. Já com o fundo americano Hines, mais experiente em negócios no país (é também parceiro da construtora Tecnisa), celebrou um acordo pontual para viabilizar quatro novos edifícios com custo total estimado em R$ 600 milhões. O modelo de comercialização, na sociedade com os asiáticos, é outra surpresa. A ideia não é vender os imóveis, mas locá-los, algo que o jovem presidente da Vitacon, Alexandre Lafer Frankel, de 37 anos, diz estar em sintonia com as novas práticas destes tempos de Uber e outros bens compartilhados, na chamada “sharing economy”.

Para Frankel, que recebeu PODER fora do horário normal de expediente, mais à feição de uma “agenda João Doria”, o famosíssimo sonho brasileiro da casa própria – que ele define como um traço cultural “latino” e “feminino” – não é nada inteligente. “Ao longo da vida precisamos de soluções de moradia distintas. Um apartamento para os tempos de faculdade, outro para a pós-graduação fora, um terceiro no retorno ao país, um maior quando temos filhos, um mais compacto quando os filhos vão embora, outro quando envelhecemos. Não faz sentido comprar imóvel, ainda mais com os juros altíssimos do Brasil. Aí, o sujeito fica fritando no cartão de crédito e não consegue mexer naquele [capital] imobilizado”, diz.

A frase é bastante inesperada para alguém cujo ganha-pão é vender imóvel, ou seja, metros quadrados (mesmo que poucos) de algo em que alguém irá morar. Mas é justamente desse velho modelo que ele espera um dia se desvencilhar. “A filosofia na qual acredito é similar à que rege o mercado de automóveis. O que o cliente precisa é de uma solução de moradia completa, alguém que cuide dos serviços e da manutenção, e que, na hora em que for preciso reformar o prédio todo, por exemplo, isso não seja uma impossibilidade por conta do grande número de proprietários”, esclarece.

Se a empresa espelha de alguma forma seus dirigentes, pode-se esperar vida longa e pujante para a Vitacon. Frankel, que diz vender imóveis desde que se “conhece por gente” – seu pai, Abrão, hoje também sócio da Vitacon, levava-o ainda moleque para os canteiros de obras da construtora da família à época, a Reid -, é um entusiasmadíssimo, digamos assim, animal urbano. Corredor de triatlo nas horas que já foram mais vagas, boa-pinta, cativante, ele usa o vocativo “cara” para enfatizar suas frases, olha fixamente o interlocutor e parece muito à vontade ao falar da empresa – se não é assim, engana bem. Adora as metrópoles superadensadas em que há bens culturais a fruir e a mobilidade é generosa com seus habitantes. Não é o caso de São Paulo, mas ele, que se proclama um “believer”, acha que um dia chegamos lá. Frankel trocou já há alguns anos o carro pela bicicleta, não se importa em caminhar bastante e é usuário eventual de transporte público. Os empreendimentos Vitacon, aliás, dependem disso para vingar. A empresa só lança produtos no “centro expandido” de São Paulo, perto de estações de metrô ou de corredores de ônibus.

Tudo isso pode soar como mais uma incursão hipster ao mundo dos negócios, mas o portfólio da Vitacon vem ganhando bastante envergadura. E não apenas por conta de suas muitas quitinetes ou, melhor dizendo, de seus muitos apartamentos compactos. A empresa tem imóveis bem mais amplos – de até 144 metros quadrados – e empreendimentos comerciais, alguns em locais extraordinariamente valorizados, como a vizinhança do Google na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Foram 7 mil imóveis entregues na história da Vitacon.

Se a redução de espaço não é, evidentemente, um valor em si, a localização do imóvel e, mais do que isso, a “rua”, sim. Frankel começa a implantar em seus projetos o que chama de “lobby ativado”, espaço em que cada condômino – na falta de uma palavra mais contemporânea – pode ter seu próprio “point” na área comum do edifício. “Imagina o tesão que é pegar seu jornal de domingo, ou o iPad, e ficar ali no lobby, lugar integrado com café, um ambiente controlado bom para ver gente e fazer networking, e que seja um espaço acessível também para as pessoas da rua?”, diz.

Ao lobby ativado somam-se outras novidades, como um compartimento que lembra guarda-volumes para receber e abrigar compras quando o morador estiver distante (inclusive as que precisam ir rápido para a geladeira), poucas (ou nenhuma) vagas de garagem, bicicletário –eventualmente com bikes para aluguel. Nessa seara, há também kit de ferramentas e até mesmo carros para serem compartilhados. Com tudo isso, que não se pense que Frankel vende apartamentos que, de tão franciscanos, poderiam integrar o Crusp, o conjunto residencial da Universidade de São Paulo. Na autoria de vários projetos Vitacon estão grifes da arquitetura, verdadeiros starchictets como Arthur Casas, Mila Strauss, Marcio Kogan e o canadense Graham Hill. É mais uma jogada de mestre do empresário, pois o valor que esses nomes agregam ao produto é considerável. E as grifes participam do projeto todo, não apenas executando só a fachada ou só o paisagismo. “A ideia é que um mesmo arquiteto faça barba, cabelo e bigode. Todos os nossos projetos conversam, têm um DNA comum, mas quero que sejam peças únicas, com um componente autoral.”

Mesmo com enormes afinidades eletivas com a agenda urbano-civilizatória do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que conseguiu aprovar um plano diretor “focado em mobilidade”, como diz Frankel, e incrementou a malha cicloviária e de corredores de ónibus, o dono da Vitacon não olha para trás com saudade. Para ele, o “mercado deve se autorregular”, e na gestão Haddad havia muito “dirigismo”. “Poderiam ter sido promovidas muitas parcerias público-privadas, mas existia uma desconfiança extrema em relação aos empresários”. Com Doria, a expectativa é grande, especialmente se ele “pegar tudo o que é bom do legado Haddad” e fizer o que sempre fez na vida – “olhar para o mercado”.

Fonte: Poder Joyce Pascowith – Maio/2017

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